HISTÓRIAS DA BENEDETTA

As brincadeiras do meu tempo


Por Marcia Marques Costa

Quem disse que ninguém mais lê textos longos, certamente não fez sua pesquisa com os leitores do Panorama SC.

Isto porque não foram poucos os pedidos para que este projeto intitulado Histórias da Benedetta tivesse continuidade. É bom saber que muitas pessoas viajam no tempo para reviver momentos em que a vida era bem mais simples e calma.

Aliás, entre minhas lembranças de adolescência e juventude, ficou marcado que paciência era palavra impregnada em tudo. Não adiantava se estressar!

Tudo tinha seu ritmo e, para azar dos afobadinhos, ele costumava ser sempre bem lento.

Não havia internet. Ninguém tinha celular para ficar enviando mensagens pelo WatsApp, postar fotos no Facebook ou Instagram, repassar informações no Twitter, blog ou site, e apenas nas residências dos mais afortunados, e bota afortunados nisso, havia um telefone de discar.

Para os meios de comunicação havia o telex e o teletipo, aparelhos usados para transmitir informações às redações de jornais e rádios, anunciando grandes acontecimentos do mundo. Mas nada era instantâneo como agora, onde com apenas um smartphone se faz uma transmissão ao vivo de qualquer lugar, podendo ser acompanhada em tempo real em qualquer canto onde a telefonia esteja presente.

Vivíamos num mundo onde curso de datilografia era requisito primordial para um bom emprego, e quem precisasse fazer um trabalho escolar ia até a biblioteca de sua escola para pesquisar em livros. O Google da época era a enciclopédia Barsa, uma coletânea onde havia informações de diversos assuntos, mas só as melhores escolas e as pessoas de classes mais abastadas conseguiam adquirí-la. Pode-se dizer que isso até dificultava o acesso ao conhecimento, mas naquela época não havia o famoso control+C e control+V de agora a dificultar o aprendizado.

Até para estudar era necessário o cultivo da paciência.

Para o trabalho escolar havia a necessidade de muitas horas de leitura e pesquisas. Depois de ler tudo, era preciso fazer um resumo e transcrever a mão o conteúdo necessário para uma folha chamada de almaço, e caprichar na capa. No meu caso, a capa ia sempre ornamentada com desenhos em giz de cera. Tudo feito sem computador, impressora e nem apps especializados.


Os desenhos de Walt Disney

Quando cursava o ensino fundamental e residia na Rua Américo Cadorin, eu e minhas amigas Marcelina Bez Fontana e a saudosa Cisa De Bona Sartor, costumávamos cultivar a paciência brincando de ampliar desenhos dos famosos personagens de Walt Disney.

Reunidas no paiol da residência de dona Nórdia Biz e Vangiro De Bonna Sartor, passávamos tardes inteiras copiando imagens de Mickey Mouse, Pateta, Tio Patinhas, Pato Donald e por aí vai. Os papeis para isso conseguíamos na Gráfica Paraíso, onde um bondoso senhor que não lembro o nome, se sensibilizava com nosso desejo de desenhar e fornecia pedaços de papel, além das tirinhas que sobravam dos cortes, com as quais inventávamos brincadeiras. E os trabalhos de ampliação realmente ficavam bons, tanto que fazíamos exposição dos mesmos para nossas mães e familiares, alguns dos quais elogiavam tanto que nos faziam sentir como as Tarsilas do Amaral da rua da igreja.

Mais tarde, quando já casada e com três filhos, utilizei esta habilidade desenvolvida na infância inúmeras vezes, sendo a mais desafiadora a vez que tive de ampliar a mão um mapa da Itália para um documentário sobre a imigração italiana na região, feito por nossa agência de publicidade, a Publi-Ur, na década de 1980 e exibido na extinta rede RCE.


Tudo ao contrário

E se a comunicação hoje é rápida, não deve ser tão sigilosa quanto era entre as minhas amigas citadas acima. Eu, Cisa e Marcelina nos comunicávamos numa linguagem própria, falando rapidamente todas as palavras de trás para frente. Isso exigia paciência para ensinar o cérebro a fazer tudo ao contrário do que havíamos aprendido. Era difícil para nós e, mais ainda, para a garotada que tentava descobrir o que falávamos.

A única coisa que não esqueci e que ainda tenho neurônios para falar de trás para frente sem gaguejar, é meu nome: AICRAM SIER SEVEN SEUQRAM.

Ás vezes fico pensando que deve ter sido desta forma o nascimento de vários idiomas, com as pessoas se comunicando propositalmente diferente das outras.

Além de falar tudo ao contrário, gostávamos de experimentar novidades.

Minha amiga Cisa, que faleceu ainda bem nova, se encantava quando ia na minha casa e via todos os origamis que eu fazia para enfeitar a penteadeira com um grande espelho, que minha madrinha Ida Bez Batti havia dado.

Aprendi com minha avó a dobrar papel e transformá-lo em estrelas, bonecos e animais. Tentei ensinar Cisa mas, infelizmente, apesar de achar muito bonito, ela não tinha paciência para ficar dobrando papéis. E também não entendia porque um elefante de papel tinha que ficar com a bunda virada para fora da casa, como mandava um dos ensinamentos de nossas supersticiosas avós.

Nem sei onde e quando minha avó Tilinha Neves Marques aprendeu a fazer isso, mas lembro o carinho que dispensava me ensinando a dobrar folhas de revista para fazer balão de São João.

Mundo das artes

Aliás, sempre tive uma afinidade maior com o mundo das artes. Ciências exatas deixavam-me irritada e muito confusa. Por isso preferia a poesia, a pintura, a confecção de brinquedos e o canto. Falando em música, recentemente um amigo e ex-vizinho - Dr. Luiz Paulo de Souza, disse que adorava ficar ouvindo eu cantar a música eternizada por Gigliola Cinquetti - Non ho l’età.

Fiquei muito feliz, agora com mais de 60 anos, em saber que alguém gostava da minha voz e da música que eu cantava na varanda da minha casa, a qual era ao lado do meu fã mirim.

Naquela época, Luiz Paulo era apenas um garotinho.

E vou confessar! Eu treinava muito. Mas muito mesmo. Nem sei como familiares e vizinhos não reclamaram. Só que não foi apenas por amor à arte.

Eu fui intimada pela professora de música do Colégio Rainha do Mundo a participar do teatro da escola cantando duas músicas: Ave Maria e Non ho l’età.

Era a última chance para eu aumentar meus pontos em química e matemática, matérias que sempre me dei mal. No final, tudo certo.

Participei da inauguração do auditório do Colégio das Beneditinas e ainda consegui os pontos que precisava para não deixar meus pais tristes com notas baixas.


Brincar era aprendizado

Até para brincar se aprendia a ter paciência.

Eu adorava jogar o 5 Marias. Para quem não sabe, este é um jogo que se faz com saquinhos cheios de arroz, jogando um para o alto e pegando o que está no chão antes de o primeiro cair. Se faz isso até ter os cinco saquinhos na mesma mão e sem deixar cair nenhum.

Eu era craque nisso e fazia meus próprios saquinhos, assim como a maioria das minhas amigas.

Latas de massa de tomate da marca “Elefante” eram relíquias e serviam, depois de furadas e interligadas com barbante, como ancestrais do celular.

Nunca consegui desmanchar certo o barbante que se colocava nas duas mãos para brincar do jogo chamado “cama de gato”, mas adorava fazer roupas de bonecas com restos de retalhos, embora a agulha para costurá-las rendesse vários furos nos meus dedos.

Lembro que penas de galinhas viravam petecas e folhas de mamoeiro transformavam-se em canudos para fazermos bolinhas de sabão que voavam trazendo alegria em bolhas multicores.

Além disso, havia sempre um retalho de cor escura guardado para que se pudesse brincar de “pata-cega”.

Os rapazes produziam fundas com galhos de árvores, pelotas de barro, carretilhas feitas com tábuas usadas (uma adaptação do carrinho de rolimã), arcos e flechas também com galhos de árvores, varas de pesca com taquaras e ainda arapucas para caçar. Dava para contar nos dedos de uma mão quem tinha dinheiro para comprar qualquer equipamento ou brinquedo desse.

Até mesmo um pião era tido como sonho de consumo, que também exigia paciência para enrolar a fieira e aprender a fazê-lo rodar no chão ou na palma da mão.

Brincar de amarelinha tentando chegar ao céu, pular corda e jogar bolinha de gude, exigiam a paciência de esperar na fila até que algum jogador perdesse sua vez. Mas não importava.

Afinal, viver aqueles momentos era a diversão.

Lamentavelmente, as crianças de hoje, por várias questões que vão desde segurança até falta de oportunidade, não terão estas maravilhosas experiências .

Bons tempos! Agradáveis lembranças.