Canteiro do Conhecimento e o Cinderelo da Benedetta

Nesta sexta-feira 15/10, dia em que se homenageia o Professor, recordo com carinho e gratidão de todos quantos fizeram de suas profissões um caminho para que eu pudesse evoluir espiritualmente e adquirir conhecimentos.

A estes lapidadores de pessoas, que tentam amenizar os tapaços que a vida nos dá e nos ensinar que não há colinha disponível nas provas de sobrevivência em relacionamentos humanos e mercado de trabalho, o meu MUITO OBRIGADA!

Hoje, no espaço das Histórias da Benedetta conto uma passagem sobre um aluno de minha sogra- a professora Odete Bilk Costa.


O canteiro do conhecimento


Professora de História e Geografia, minha sogra Odete adorava flores. Adquiria batatas, mudas e sementes de vários tipos, além de revistas que ensinavam a fazer jardins. Nem sempre tinha sorte em suas investidas, pois algumas espécies trazidas de sua cidade natal, Florianópolis, ou de São Paulo onde residiam seus filhos, não se adaptavam ao clima da Benedetta.

E quando as plantas vinham bonitas e floriam, não era raro sumirem de um dia para outro dos canteiros defronte a sua residência. Às vezes ela ficava muito brava por furtarem suas plantinhas, mas depois acabava esquecendo e reiniciando sua tarefa de manter florido e perfumado o lugar onde residia.

E seus alunos, conhecendo esta sua fraqueza, procuravam se beneficiar. Certa feita, uma senhora que foi aluna dela, me revelou que quando estava entediada com as explicações da matéria, sempre perguntava algo sobre flores para a professora Odete.

Isso significava explicações sobre plantio, manuseio de plantas e jardim no resto da aula.

Mas a história que vou relembrar nada tem a ver com flores perfumadas e , sim, com trabalho árduo.

Isso porque, antigamente, os adolescentes ajudavam seus pais em trabalhos domésticos, seja em colheita nas safras, no plantio das roças de milho ou feijão e até mesmo na labuta diária para tratar os animais domésticos e manter as propriedades.

Ir para a escola todos os dias nem sempre era tarefa possível para quem dependia do agronegócio.

E dona Odete tinha um aluno assim.

Nos dias de sol ele nunca comparecia, e nos dias de chuva ia para a escola. Como não acompanhava as lições, acabava ficando em sala de aula fazendo bagunça e atrapalhando os colegas de classe.

Certa feita, incomodada com as travessuras do rapaz, Odete olha para ele e diz:

- Por que você não fica em casa? Não precisa mais vir às aulas atrapalhar seus amigos, já está rodado!

E ele risonhamente respondeu:

- Dia de sol a gente trabalha. Dia de chuva a gente vem pra aula incomodar a professora!

E o garoto continuou indo às aulas. Rodou, se rematriculou e, para que não perdesse novamente o ano, ganhou aulas em horário que poderia estudar e, sentido-se no mesmo nível dos amiguinhos da sala, nunca mais incomodou a professora.

E foi assim que a mulher que amava jardins, tirou os espinhos da sobrecarga e ajudou uma plantinha urussanguense a florir no canteiro do conhecimento.


O Cinderelo da Benedetta

Contam os pesquisadores que a Cinderela famosa no mundo inteiro pelas animações de Walt Disney, é um personagem que existe quase um século antes de Cristo e que, num modelo diferente do atual, teria surgido na China.

Verdade ou não, o fato é que dois irmãos alemães deixaram registrada uma violenta versão da história de Cinderela, e o escritor francês Charles Perrault acabou tornando sua versão a mais conhecida, após escrever seu livro baseado num conto italiano chamado “ A gata borralheira”.

Certamente, desde que surgiu, a Cinderela teve sua imagem moldada conforme a visão e a inspiração de vários escritores.

Com carruagem nascendo de avelã ou de abóbora, com fada madrinha ou sem ela, com sapatinho de cristal ou de ouro, o conto infantil que traz uma mensagem de esperança na realização de sonhos, sempre colocou a mulher como a sofredora que foi resgatada pelo príncipe bondoso.

Mas na Benedetta há outra versão.

Para quem não sabe, em Urussanga também existiu um Cinderelo. Sim, isso mesmo. Um Cinderelo!

Acontece que, por volta da década de 1940, um homem que estava preso na cadeia existente na Av. Presidente Vargas por ter assassinado um agricultor no interior do atual município de Siderópolis, foi chamado pelo juiz para prestar seu depoimento no Fórum.

O delegado da época chamou seu subordinado, um único policial que atendia as ocorrências e cuidava dos presos, para que o mesmo levasse o assassino até o local do seu julgamento.

A prisão ficava onde hoje é o início da Rua Angélica Collodel Bettiol e o Fórum funcionava nas proximidades da praça Anita Garibaldi.

Pois bem, quando chegou na altura do Casarão Nichelle, o preso aproveitou de uma distração do não tão atlético policial e deu-lhe uns tapas e socos, fazendo com que o homem da lei fosse por terra. Enquanto ele se levantava, pegava seu revolver e boné, o preso já havia desaparecido. Voltando desesperado para a delegacia, o policial informou seu superior do ocorrido e ambos saíram em busca do fugitivo.

Quando chegaram nas proximidades do Bairro da Figueira, perceberam que o fugitivo havia perdido um pé de sua sandália de couro ao estilo franciscano.

E sandália, naquela época, era artigo caro.

Pensando na dificuldade de caminhar sem nada no pé e também de adquirir um novo par de sandálias ou sapatos, uma esperança surgiu para o delegado.

Ele olhou para o policial e disse:

- Você fica aqui de vigia! Não saia daqui e fique atento desta vez, pois acredito que à noite ele voltará para buscar sua sandália.

E o soldado encantado da Benedetta está até hoje de plantão, esperando que o Cinderelo assassino volte para buscar a sandália perdida e ser levado para seu castelo na prisão.

Cose da non credere!