O Padre e o Juiz que voavam para benzer Urussanga e jogar flores para seu povo

POR MARCIA MARQUES COSTA



Neste domingo 10 de outubro, o padre que deixou sua marca em Urussanga e região estaria completando 107 anos de nascimento.

E, se eu fosse escrever os “causos” e histórias em que ele se envolveu durante os mais de 60 anos que residiu na Benedetta, páginas de um jornal seriam insuficientes para relatar tudo o que este homem vivenciou.

Desde dar a extrema unção a duas pessoas da mesma família entre o início e o fim de uma refeição, esquecer o horário de um casamento e fazer os noivos ficarem esperando na frente da igreja e até se vestir de mulher e colocar peruca com cabelos loiros para fazer campanha política e enganar seus opositores.

Seu nome: Agenor Neves Marques.

Nevinho para os familiares, Padre Agenor para a multidão que o admirava, Monsenhor Camareiro do Vaticano para os que se orgulhavam da sua influência no estado papal e Nonô para aqueles que a ele assim se dirigiam na intenção de diminuir-lhe as qualidades.


A morte de aperitivo e sobremesa

Se hoje é difícil achar um padre para rezar uma missa de corpo presente e as famílias acabam aceitando uma mensagem e orações na capela do cemitério antes do sepultamento, antigamente eram bem diferentes as exigências. Se o Padre quisesse ser respeitado e querido por sua comunidade, precisava estar disponível o tempo todo. Sem horário pré-estabelecido e sem férias.

Assim foi com o Padre Agenor quando era o pároco em Urussanga, onde as famílias costumavam chamar o Padre para dar a extrema unção aos seus entes queridos.

O único horário que era respeitado era o das 12h às 14h, quando a Casa Paroquial ficava fechada para que Padre Agenor descansasse de uma jornada que iniciava às 5h e normalmente se estendia até 22h ou 23h.

Pois bem, quando o ritmo era normal, o almoço era servido por volta das 11h30min.

Assim, num dia bastante frio e úmido do inverno da Benedetta, Padre Agenor estava sentado ao lado de sua mãe Otília para mais um almoço com a comida que se mantinha aquecida no fogão à lenha, enquanto o pastor das almas atendia seu povo. Um belo prato para fazer jus ao gosto familiar pelas boas comidas já havia sido preparado para ele e, após duas garfadas, eis que surge um cidadão desesperado pedindo que ele fosse até a residência próxima da Casa Paroquial para dar a extrema unção a um senhor. O padre se levanta ligeiro e chega a tempo de perdoar os pecados do enfermo cidadão que, desta forma, poderia passar com menos angústia para o outro plano. Depois de confortar os familiares, Padre Agenor retorna para casa e, abalado pela morte do urussanguense que era seu amigo, finalmente consegue almoçar. Quando estava deitado para o seu descanso diurno, novamente o mensageiro da morte chegou chamando-lhe para dar outra extrema unção.

Padre Agenor se levanta, veste sua batina, pega a água benta e o material necessário e se assusta ao saber que iria dar outra extrema unção na residência daquele que ele havia atendido antes do almoço. Pois, infelizmente, em virtude do choque e da tristeza de perder o marido, a esposa acabou tendo problemas cardíacos e também faleceu. Uma história triste, mas que revela o espírito altruísta do homem que dirigia a igreja católica em Urussanga.


Os voadores

Um outro dia conto a história da peruca e do casal na porta da igreja, mas esta semana, vou registrar a grande amizade que unia o Padre e o juiz chamado Dr. Newton Varella.

Este juiz era piloto de avião e tinha seu próprio monomotor, o qual utilizava como entretenimento e também para apoio em emergências como levar doentes graves para hospitais mais preparados ou auxílio em catástrofes.

O prefixo PP/RUT era uma homenagem à esposa do magistrado, a qual, certamente, vivia com o rosário nas mãos pedindo a proteção dos anjos para o aventureiro marido que, junto com o Padre da cidade, gostava de fazer voos rasantes próximo aos ciprestes da Praça Anita Garibaldi.

Em registros que datam do ano de 1949, Padre Agenor conta que, na semana da festa da Nossa Sra. Imaculada da Conceição, padroeira da cidade, mais precisamente no dia 6 de dezembro de 1949, ele e o Juiz percorreram todos os recantos do município de Urussanga para benzer as residências de 2.326 famílias utilizando 9 litros de água benta. Vale ressaltar que o território pertencente a Urussanga naquela época, englobava os municípios de Morro da Fumaça, Cocal do Sul, Siderópolis e Treviso. E foi em Treviso que ambos sentiram a fragilidade humana, mesmo com tantos poderes que lhes havia sido delegados pela fé e pela justiça. Em seu relato, Padre Agenor diz que caíram, “mas sem graves consequências”. E realmente os danos devem ter sido poucos, pois dois dias depois, em 8 de dezembro de 1949, enquanto a população homenageava sua padroeira, o juiz Dr. Newton Varella aguardou o final da missa para jogar flores sobre a cidade.

Só para se ter noção do quanto Padre Agenor trilhava pelos recantos do vasto município, ele andou 4 horas a cavalo, 6 horas de moto, percorreu 30 mil quilômetros com seu automóvel e, com seu amigo Varella, fez 7 horas e 30 minutos de voo no PP/RUT. Certamente, essa foi e será a única vez na História da Benedetta que um juiz e um padre católico benzeram e jogaram flores de um monomotor.

E, enquanto há quem diga “chega de passado, chega de Padre”, eu digo: lembremos do Padre, lembremos do passado, e nos certifiquemos, através deles e seus legados, do que é capaz a ousadia, a determinação e o amor por esta terra. Ao Padre Agenor e ao Juiz Varella, a nossa homenagem e o nosso respeito.