Da dificuldade para ter roupa bem costurada ao tempo da facilidade e da roupa rasgada

POR MARCIA MARQUES COSTA

Quem já teve a oportunidade de ver e admirar fotos antigas das famílias dos colonizadores de Urussanga, percebeu o quanto era considerado importante apresentar-se bem e ter roupas sociais para toda a família.

Mais do que seguir um comportamento oriundo do mundo europeu (haja vista que para os indígenas moradores destas bandas o negócio era andar pelado mesmo e tomando cuidado para as partes íntimas não sofrerem danos em algum espinho ou galho das árvores existentes, onde coletavam alimentos), os imigrantes que aqui chegaram em meio a uma floresta virgem parece que tinham em mente eternizar uma imagem de pessoas que venceram as adversidades, pelo modo como se vestiam. Para isso, conforme atestam as fotos ao lado, eles usavam as melhores roupas e os melhores calçados para bater uma foto com toda a família.

Percebe-se que o esmero era total, com os homens caprichando nos bigodes e chapéus e as mulheres com seus penteados e modelitos conforme a região de procedência na Itália.

Em todas, no entanto, dois fatos chamam a atenção. O primeiro é quanto a busca da qualidade com o corte perfeito, costuras fortes e enfeites muito bem arrematados num grande esforço para que as peças de vestuário parecessem realmente novas.

O segundo é a falta de sorrisos em todas elas. Ninguém sorria para tirar foto, dando-nos a impressão de que rir em público não era sinônimo de bons costumes.

Seja o que for, a verdade é que conseguir alguns metros de bons tecidos para fazer um traje era algo muito difícil nos primeiros tempos.

Só para se ter uma ideia, ainda faz parte do nosso acervo familiar um pedaço de linho produzido manualmente pela avó do Sérgio, a nona Amália Mariot Costa. Naquela época, era preciso esperar meses até que algum comerciante urussanguense ou da região fosse para as grandes capitais fazer compras ou algum vendedor viesse até Urussanga e, quando as mercadorias chegavam, era preciso ter bastante dinheiro - algo não muito comum numa comunidade forçada a economizar para construir o que almejava.

Mesmo assim, as nonas que vieram da terra de Prada, Armani, Cavalli, Versace, Gabbana e Gucci, conseguiam fazer milagres com o pouco que tinham e até com as peças que haviam trazido em seus baús do país de origem. Qualidade era a exigência. Costureiras tornavam-se famosas por saber fazer moldes especiais para cada corpo e também mostrar a perfeição das costuras invisíveis nos paletós com forro.

Quando uma peça de roupa era confeccionada, ela já era preparada para vestir duas ou três gerações. Um casaco feminino de lã ou terno masculino eram peças que tinham por obrigação durar bastante e serem repassadas aos mais jovens conforme chegava a necessidade de aumentar o tamanho ou mudar o estilo.

Havia a roupa de trabalho e a roupa de sair. Porém, a vaidade ou regras sociais não extrapolavam o limite da consciência de que roupas eram apenas peças necessárias para cobrir o corpo e para serem usadas até que se gastassem, sem que significasse inferioridade ou mau gosto repetí-las em eventos.

Quando comecei a me interessar por moda, lá pelas décadas de 1970 e 80, Urussanga já tinha um comércio forte, com a Loja Chiquinha sendo a boutique das mais elegantes da cidade, onde havia uma vitrina que encantava pelas peças que a proprietária Neise Búrigo trazia de São Paulo e até do Nordeste brasileiro.

Outro ponto famosíssimo era a loja Santo Antônio, da família de Lauro De Bona, onde hoje fica a Cinderela Calçados. Alí eram vendidas as famosas japonas e a grande novidade da época: os jeans das disputadas calças LEE.

Detalhe:o comerciante dava garantias. Se o produto encolhesse, descosturasse ou desbotasse ao ser lavado, podia-se trocar por outra calça nova.

Hoje, ao olhar as pessoas de várias faixas etárias usando calças jeans rasgadas propositalmente, mais parecendo um velho pano de chão colado ao corpo, fico a imaginar a expressão que minha nonna faria. Certamente, ela diria: “poveretti, non ha mai cosa da fare!”

Realmente, parece ser o fim da criatividade. E muitos me dirão, mas é a moda, é a evolução... E ainda assim, continuo a pensar: que moda é essa que precisa estragar o que é bonito ?

Que evolução é essa que, ao invés de cada vez mais querer o reaproveitamento, estimula o descartável?

E talvez algum dia depois de nós, quando muitos dos recursos naturais estiverem esgotados, alguém analisará tudo isso e dirá: precisamos voltar a plantar linho como a Amália e fazer roupas que também nossos netos possam herdar.