Urussanguenses fazem manutenção nos sinos da torre da igreja em Urussanga


Gilson e Reinaldo trabalhando na torre da igreja matriz de Urussanga


lá se vão cerca de 90 anos desde dia em que o pároco de Urussanga- Padre Luigi Gilli viveu momentos de grande ansiedade com a responsabilidade de colocar na torre da igreja Nossa Sra. da Conceição, os quatro sinos que haviam sido adquiridos na Itália, com a ajuda dos seus paroquianos.

Foram décadas anunciando as horas, chamando para as missas, novenas, anunciando falecimentos, tempestades, lembrando os mortos e cumprimentando novos Papas.

No mês de maio passado, após um alerta de problema nos sinos, feito pelo urussanguense Fernando Copetti ao entusiasta preservador da cultura local e técnico em edificações -Gilson Antônio Fontanella, iniciou-se o trabalho de recuperação com a permissão do pároco Padre Daniel Pagani.

Preocupado em não deixar que estas relíquias ficassem sem uso devido à ação do tempo, Gilson foi em busca de apoio para fazer a manutenção necessária.

Segundo Gilson, Fernando o procurou para informar que quando iam bater o sino havia uma trepidação na corda que indicava haver algum problema. Após esta constatação, o pároco Daniel Pagani foi procurado e autorizou que se fizesse uma avaliação para descobrir o que estava acontecendo.

Acompanhado do filho e arquiteto Fernando Fontanella e do Diretor de Cultura do município - Nevton Bortolotto, Gilson participou deste trabalho que detectou um grande desgaste no eixo e mancal dos sinos.

Em seguida, foi contratado o urussanguense Reinaldo de Aguiar para que, a exemplo do que já havia feito na igreja do Bairro De Villa, recuperasse também os sinos da matriz.

“A nossa grande preocupação é recuperar mantendo os artefatos na forma original, queremos recuperar e não colocar peças modernas. Esses sinos, que tem data de 1926 , já estão há muito anos sendo usados e o desgaste é natural. Nó fomos lá no local, com supervisão para que nada desse errado, e foi feito o trabalho lá mesmo na torre. Já fizemos a recuperação do menor deles. Agora vamos, um por um, recuperar todos”, explicou Gilson ao acrescentar que um novo sistema foi adotado para engraxar os mancais


Da história


Em seu livro Tanti Anni Dopo, a escritora urussanguense Marcia Marques Costa relata a instalação do último e maior sino da torre da igreja Nossa Sra. da Conceição, conforme texto a seguir.


“Colocação do sino


Depois da pequena capela construída pelos recém chegados imigrantes, veio a primeira igreja construída de forma modesta com a colaboração das famílias urussanguenses.

O primeiro pároco Luigi Marzano já havia voltado para a Itália e Pe. Luigi Gilli, que havia assumido seu lugar, contava com o apoio dos fiéis no sonho de uma grande edificação ao estilo daquelas que deixaram na Itália.

Com a prosperidade da vila, os imigrantes decidiram construir una bella chiesa, mas encontraram resistência no próprio padre.

Pe. Gilli, homem de grande sensibilidade e conhecedor dos costumes de seus coirmãos, queria primeiro construir uma torre, colocar os sinos e depois fazer uma nova igreja. Ele temia que, fazendo a igreja primeiro, os colonos não iriam mais querer construir a torre. E assim foi feito. A torre foi construída e os sinos adquiridos na Itália. Quando os sinos chegaram a Urussanga foram sendo instalados. Mas o último dos quatro, com aproximadamente 900 kg, acabou se tornando um grande problema a ser resolvido. O peso dele, a grande altura da torre e a falta de equipamentos que pudessem erguê-lo sem que caísse e quebrasse, tornaram-se fatores que impediam a conclusão da obra.

Durante um ano, Pe. Gilli pediu durante as missas que alguém se habilitasse para a tarefa. Mas ninguém tinha coragem. Ainda estava viva na memória popular o dia em que haviam tentado colocar o sino da igreja antiga na torre e o mesmo se espatifou no chão, criando uma música que acabou virando piada na comunidade, cuja letra era:

“Dim, Dom, Della La spacà la campanella Dim, Dom, Dà Chi la pagherà?”

Ou seja, o sino se quebrou, quem o pagará?

Até que, certo dia, Ernesto, filho de Ferdinando Bettiol, chegou em casa e disse a seu pai: “Eu vou colocar o sino. Tenho dez contos no banco em Tubarão. Se quebrar, eu pago.”

Ernesto e seu irmão Ângelo Bettiol, auxiliados por David Copetti e Baptista Fontanella, utilizaram a ferraria para construir um guincho, uma corrente e os acessórios de madeira para erguer o sino e colocá-lo em seu lugar na torre.

Padre Gilli foi comunicado da intenção e o dia foi marcado. Com a ajuda de outros colaboradores, Ernesto subiu na torre e foi iniciada a operação. Enquanto isso, Padre Gilli, com a Bíblia aberta e o rosário na mão, andava ao redor da igreja velha rezando e pedindo proteção a Deus. Quando passava pela torre se benzia.

Na praça, i contadini aguardavam ansiosamente pelo resultado da operação, pois até uma banca de apostas foi aberta. Felizmente, as preces do padre foram ouvidas, tudo deu certo, os que apostaram em Ernesto Bettiol puderam dividir o prêmio em dinheiro e soltar foguetes e, até hoje, os sinos da torre da igreja matriz continuam a anunciar as horas e comunicar os falecimentos dos urussanguenses católicos.

O sino maior é utilizado sozinho somente em ocasiões especiais como morte do papa, bispo ou pároco. Os demais, em ordem decrescente conforme o peso, são denominados: Maria (utilizado para Ave-Maria e aviso de morte); Bárbara (utilizado antigamente quando aconteciam tempestades, pois se acreditava que afastava as mesmas), e Lúcia (utilizado para anunciar o falecimento de criança). O ritual de bater os sinos às 6 da manhã e da tarde, nos horários de missa e avisos de morte acabou tornando-se também uma tradição na família Bettiol que, através de Adão, trouxe este costume até os dias de hoje.”


Diretores de Panorama visitaram fábrica dos sinos da torre


Também no livro Tanti Anni Dopo, está relatada a visita feita por Sérgio Costa e Marcia Marques Costa, no ano de 2010, na fábrica dos sinos da torre da igreja matriz Nossa Sra. da Conceição de Urussanga, que ficava na cidade de Valduggia-IT. Confira a seguir.


“Na cidade do sino


Nossa primeira missão histórica em terras italianas: visitar a cidade onde o Padre Luigi Gilli havia adquirido os sinos da torre da igreja matriz de Urussanga.

O destino era Valduggia, a cerca de setenta quilômetros de Milão, cidade com 1.800 habitantes, localizada na região do Piemonte, província de Vercelli.

Para se ter uma idéia do que é chegar a Valduggia, basta imaginar que estamos indo para um lugar onde as pessoas vivem a 900 metros de altitude, onde se chega por estradas tortuosas e ladeadas por montanhas quase sempre mostrando suas pedras milenares ou frondosas árvores que ficam em tons de vermelho com o frio.

Mas, tudo isso, sem se preocupar com buracos, pó ou lama na estrada, pois na Itália o asfalto chega às mais distantes comunidades interioranas e o GPS acoplado ao veículo conduz o motorista onde este desejar ir.


Em Valduggia


Sérgio com o casal Mazzolla em Valduggia


Uma rua tortuosa com construções aparentando muito tempo de existência, foi a primeira vista que tivemos ao chegar à cidade de Valduggia.

Pouquíssimos veículos trafegando e ninguém nas calçadas para que pudéssemos perguntar onde ficava a fonderia Mazzolla.

Era nesse lugar que pretendíamos conhecer o proprietário da fábrica de sinos, contatado anteriormente por email e descoberto através de pesquisa iniciada pelo emblema da família nos próprios sinos da torre da igreja de Urussanga. Não foi difícil encontrar. A família de seu Roberto Mazzolla é conhecida em Valduggia desde 1400, quando iniciaram os trabalhos na produção de sinos.

Percorridos alguns metros, estávamos diante de uma construção mais moderna, ao estilo das nossas indústrias aqui na região, com o escritório na parte da frente e a área de produção no setor detrás. Tocamos a campainha, não havia recepcionista, e fomos atendidos por um encarregado do setor de produção que, posteriormente, foi chamar o proprietário.

Rapidamente seu Roberto aparece e nos conduz ao seu escritório e telefona chamando sua esposa.


O casal Mazzola no interior da antiga fábrica

Homem humilde, de semblante sereno e sorriso fácil, Roberto explicou que a fábrica de onde saíram os sinos de Urussanga não estava em funcionamento. Com tristeza, ele nos disse: “os tempos são outros, as vendas caíram e as leis mudaram. Não houve condições de nos adaptarmos e, hoje, sem termos feito mais investimentos, a fábrica está interditada por motivos de segurança.”


Mesmo assim, fizemos questão de visitar o local. Chegamos diante de uma construção antiga, onde ainda se podia ler, nos restos de tinta da parede, o nome Fonderia Mazzolla. Estava tudo lá. As formas dos sinos, dos enfeites, as ferramentas utilizadas, a fornalha onde aqueciam o ferro...

Roberto nos explicou como confeccionavam os sinos e foi perceptível a sua felicidade ao lembrar da fama da empresa familiar, que exportou vários sinos para a América, inclusive Brasil e Argentina.


Sinos produzidos na antiga fábrica e que nem chegaram a serem vendidos


Na época em que os sinos de Urussanga foram adquiridos, eram levados em carroças puxadas por cavalos até a cidade de Borgosesia, cerca de seis quilômetros distante, de onde seguiam de trem até Genova para serem exportados para os países da América. Posteriormente, Roberto nos levou à sua residência e à residência de seus pais, onde uma escrivaninha com mais de um século ainda ostentava um recipiente de armazenar tinta e uma caneta de pena de seu avô.

Na luxuosa sala, podia-se ver retratos dos antepassados e um certificado de Honra ao Mérito emitido pelo Vaticano, em virtude das numerosas capelas e igrejas que contavam com a arte de fundição dos Mazzolla. O lustre pendurado no teto com afrescos datados de um século, feito com cristal de Murano pintado à mão, nos deu a dimensão da prosperidade dos antigos donos da fonderia.

Atualmente, Roberto é proprietário de uma indústria de componentes para o setor de automação.

Encantado, ao saber da distância da nossa cidade e dos motivos que nos levaram lá, Roberto nos presenteou com algumas lembranças da antiga fábrica de sinos e queria que ficássemos na cidade. Mas nós queríamos conhecer o lago que ficava lá embaixo das colinas, a 53 km de distância- o Lago Maggiore e sua Isola Bella. Nos despedimos e, de recordação, uma foto de todos juntos com a bandeira de Urussanga.


Na fábrica


O tamanho de alguns sinos impressionou. Para se ter uma noção, basta olhar a foto com Roberto no interior da fábrica, ao lado de um sino com quase um metro de altura

Andando pelo interior da fábrica, pode-se ver sinos de vários tamanhos e produzidos em vários séculos.