Sérgio Maestrelli

AS ÁGUAS DO RIO URUSSANGA ATRAVÉS DA HISTÓRIA - Parte I


O Comitê da Bacia do Rio Urussanga havia programado uma exposição fotográfica sobre o Rio Urussanga no mês de março, porém com a suspensão dos eventos presenciais devido ao Covid-19 o evento foi transferido “sine die”, visando aguardar uma data oportuna e viável. Em tempos de estiagem prolongada, em que mais uma vez a natureza nos envia um bilhete, um recado, dizendo que a nossa atitude e conduta quanto ao tema “água” precisa mudar, e para se mudar é necessário conhecer, então vamos conhecer um pouco das águas do Rio Urussanga através da história. Nas nascentes do Rio Carvão, nas nascentes do Rio Maior, e na junção desses dois cursos d’água surge o Rio Urussanga. No passado, esse encontro duplicava a vida. Agora, desse encontro surge a morte. Em seu trajeto vai recebendo as águas do Rio dos Americanos, Rio Deserto, Rio Salto, Rio Caeté... e deste modo segue para a Praia do Torneiro. As águas correm para o rio e o rio corre para a Praia do Torneiro numa viagem de 40 km e mergulha para o mar. Antes do mergulho no Atlântico, parte desta água necessitamos. Vamos ver então como as águas vão rolar.


O Rio dos Índios Xokleng

No período anterior à imigração italiana, essas águas povoadas por peixes de várias espécies serviam de fontes de alimento para os animais e para os índios Xokleng. Para matar a sede, para os banhos e para o lazer. E a eles devemos o nome do rio e da nossa cidade que tem origem na língua tupi-guarani.Yroiçanga (água muito fria).


O rio como tábua de salvação

Logo no início de nossa história, em 1880, o pavor, a inquietação, a desesperança tomou conta dos imigrantes com a peste varrendo a colônia. Febre, calafrios e a morte chegando e com o agravante do completo desconhecimento das suas causas. Talvez tifo, talvez peste bubônica, talvez... As águas do Rio Urussanga e seus afluentes serviram de antídoto e remédio para o tratamento dos doentes. Registros antigos relatam que doentes ardendo em febre eram colocados deitados nas fontes, banhados e às margens do Rio Carvão para receber a divina água fria. Para muitos foi a tábua de salvação e deste modo se agarraram novamente à tênue teia da vida. O Rio Urussanga havia se transformado no Rio Jordão bíblico, no Rio Ganges, o rio sagrado da Índia. Não podemos também omitir que do rio também necessitamos de água que na igreja se torna benta. Fomos batizados pelas águas do Rio Urussanga.


Com o advento do Imigrante

Com o advento do imigrante, além da água para matar a sede e a fome através dos peixes, elas tiveram sua utilização direcionadas para a atividade econômica com a implantação de serrarias e atafonas, engenhos, ferrarias, movidos pela força motriz de suas águas. No início da colonização italiana, somente na localidade de Rio Carvão havia várias atafonas que com a força das águas, moviam as pedras que transformavam milho em polenta, o prato número 1 da família italiana. Serrarias instaladas também beneficiavam a madeira para a construção de casas. As águas do Rio Carvão e do Rio Maior movimentaram as primeiras indústrias de nossos antepassados.


O Rio como local e fonte de lazer

As águas do Rio Urussanga em seus pontos mais profundos serviram de lazer para a velha geração, com os banhos nos ensolarados domingos do verão, como registraram os amigos Hédi Damian e Armando Bettiol, ou navegar em seu trecho na área urbana com balsas de troncos de bananeira como fazíamos com os amigos na Rua do Sapo na década de 60. Numa época sem piscinas e sem trampolim, eram comuns os mergulhos dos mais corajosos que se atiravam em suas águas da ponte da Rua Duque de Caxias, a ponte da Olguinha.


Década de 40, energia elétrica

Suas águas foram represadas e começaram a produzir energia elétrica e deste modo passaram a iluminar por curtos períodos a nossa cidade, além de se tornar insumo para algumas de nossas indústrias. Em agosto de 1944, foi fundada por Ângelo Antônio Nichele e Antônio Ferraro a Empresa Força e Luz de Urussanga Ltda. – EFLUL, responsável pela distribuição de energia elétrica no município de Urussanga.


O Rio e a exploração do carvão

Com o início da exploração carbonífera na localidade de Rio Deserto a partir de 1918 e na localidade de Rio Carvão a partir de 1941, suas águas passam a transportar a morte. Otávio Sorato, 100 anos, de Estação Cocal nos relatou que “a água suja do carvão descia e os peixes se aglomeram num canto fora d’água buscando desesperadamente o oxigênio da vida. Uma cena triste, disse ele. Eu não sabia porque acontecia isso. Pensava que era uma doença”. Da década de 40 até a década de 80, as águas do Rio Urussanga lavaram o carvão e do rio se extraía a moinha. Homens nas picaretas e mulheres na escolha do carvão.


Da Ferraria do Adão

Quem da nossa geração, principalmente a turma da Rua do Sapo não se recorda do “Canal do Adão”? Um desvio de uma parte das águas do Rio Urussanga para movimentar e dar vida à Ferraria de Ernesto e Angélica Collodel Bettiol, cujas atividades foram encerradas pelas enchentes em 1974, um desastre para a cidade.


AS ÁGUAS DO RIO URUSSANGA ATRAVÉS DA HISTÓRIA CONTINUA NA PRÓXIMA EDIÇÃO DO JORNAL PANORAMA.


ATTENTI RAGAZZI

Habemus Padre. Meu espírito exulta em Deus, meu salvador, e que isso se espalhe e encontre eco por todos os cantos e confins da Terra. Que a sua caminhada como sacerdote, Pe. Matheus, seja longa e que nessa trajetória você não perca nenhum daqueles a quem o Senhor lhe confiou. Seu lema sacerdotal será a sua bússola.