Mães de filhos distantes - a saudade que vira rotina

Não é possível manter os filhos sob nossas asas ou embaixo de nossas saias eternamente.

Estas eram frases ditas por muitas nonas da Benedetta quando o assunto estava relacionado à saída dos filhos da casa dos pais.

E a experiência foi quem ensinou isso.

Muitos dos imigrantes que colonizaram a região deixaram seus pais e parentes na Itália, partindo para outro continente em busca de uma vida melhor.

Um século depois, as mães nascidas na nova terra enfrentam a mesma situação.

Embora não se tenha um número exato, em virtude de não existir na cidade um sistema capaz de nos dar a dimensão da evasão, é real e notório o elevado número de pessoas que deixaram ou deixam ocasionalmente Urussanga para trabalhar na Europa, especialmente na Itália, Alemanha e Reino Unido.

Há os que já se estabeleceram lá fora e agora procuram levar os demais familiares para ficarem definitivamente por lá, e há os que vão nos meses considerados “temporadas” para trabalharem em gelatterias e restaurantes europeus e depois voltam para suas residências em Urussanga.

Mas, se há algo que é comum nos dois casos, isso se chama saudade.

A saudade de quem fica sabendo as dificuldades que estas pessoas encontrarão em terras distantes, de culturas e línguas diversas.

A saudade de quem reza para que o mundo não seja tão duro com seus entes queridos e para que Deus os proteja onde estiverem.

Neste misto de preocupação, saudade e fé de que tudo dará certo, uma palavra se sobressai: Mãe.

Ela é quem sofrerá mais. Seja pela proximidade que sempre teve com os filhos, até antes de eles nascerem para este mundo; seja pela dificuldade em se adaptar à realidade do ninho vazio, no qual não há mais quem necessite de seus cuidados.

E nesta semana do Dia das Mães, Panorama SC foi às ruas conversar com mulheres que viveram e vivem esta experiência de fazer da saudade dos filhos a sua rotina.


Filha única


Residindo na Av. Presidente Vargas, centro de Urussanga, Maria da Glória Cancellier Ghisi vive há 10 anos longe de sua única filha Mirella, que trabalha como engenheira química na Austrália.

“No começo é muito difícil aceitar viver longe dos filhos. Depois vamos tornando esta dor em saudade e convivendo com isso, sempre desejando que a vida deles seja boa. Mas a saudade não vão embora nunca, a gente sentirá a falta dos filhos para sempre” explicou Glória à reportagem de Panorama.

“Nosso consolo é saber que estão bem e felizes. Isso é o mais importante” afirma Glória ao informar que conversa duas vezes por semana com sua filha por ligação telefônica, uma vez que não está bem adaptada às tecnologias atuais.


A mãe que foi e que ficou


A urussanguense Fabiana Fretta Faquin é uma mulher que viveu a experiência de ficar longe dos filhos de dois modos.

Um quando precisou ir para a Alemanha trabalhar junto com o marido e deixou seus filhos em Urussanga com os avós.

Outro ela está vivendo agora, com seu filho mais velho tendo deixado a cidade há um ano para trabalhar na Alemanha.

“É muito triste ficarmos longe de nossos familiares. Principalmente dos pais e filhos.

A primeira vez que fui para a Europa sofri muito. Naquela época não havia o tipo de tecnologia hoje disponível, com a qual podemos até fazer uma chamada de vídeo.

Nós conseguíamos falar com nossos familiares poucas vezes, primeiro porque era muito cara a ligação telefônica de lá para cá. E também porque o fuso horário atrapalhava. Então, quando a gente conseguia falar e ouvir a voz do nosso filho aqui em Urussanga a gente chorava de emoção e de saudade.

Hoje tenho meu filho que foi para a Alemanha, já faz um ano. Ei fiquei bem abalada e tenho muita saudade dele. Mas sei que ele está bem e que ele está procurando o melhor para sua vida. Então, isso me consola, me acalma e me dá forças para seguir em frente. Tenho outro filho comigo, mas sei que nós os criamos para o mundo e o melhor que podemos fazer é ter fé e rezar para que sejam iluminados e trilhem pelo caminho do bem” afirmou Fabiana à reportagem de Panorama SC.


A amizade na distância


Sandra Maria De Pellegrin Campos, mãe de um casal, também vive a experiência de estar longe de seus filhos.

A filha reside em Criciúma e o filho já está há 15 anos vivendo na Alemanha.

Entrevistada pela reportagem de Panorama SC, Sandra disse: “ é muito doído, muito tristes estarmos longe dos filhos. Mas nós, além da relação de mãe e filho, somos também grandes amigos. Temos contato diário e, mesmo quando meu filho foi para a Alemanha e os meios de comunicação não eram tão eficientes quanto hoje, nós sempre mantínhamos contato frequente. E isso me tranquilizava, porque eu penso que uma mãe, sabendo que seu filho está bem, ela também ficará bem” afirmou Sandra ao explicar que “ a distância dói, mas os filhos estando bem, em qualquer lugar que eles estejam, eu fico feliz e consigo tocar minha vida porque sei que eles são felizes. E, para uma mãe, isso é tudo o que importa”.


O filho que não voltará


Berenice Dagani, a Bere para os familiares e amigos, é uma mulher forte e que já enfrentou muitas dificuldades na vida. Mãe de quatro homens, hoje ela tem apenas um ao seu lado - o vereador Luan Varnier. O filho Fábio está na Alemanha há seis anos, o Natan está nos Estados Unidos há quatro anos e tem dois filhos.

“É difícil, muito difícil viver longe dos filhos, Ás vezes a gente chora porque eles estão fora, mas a saudade suaviza quando pensamos que eles estão bem, fazendo suas vidas.

Então, ao mesmo tempo, é triste e gratificante saber que eles estão bem lá, porque tiveram uma vida bem difícil aqui no Brasil.

A única dor que não tem consolo é a do filho que perdi ainda criança, pois este não sei onde está e a única coisa que posso fazer por ele é rezar pela sua alma” afirmou Bere ao lembrar do filho que faleceu ainda criança vítima de acidente com ônibus escolar no Bairro Nova Itália, em Urussanga.


A avó de três nacionalidades


Nórdia Mazon, mãe de três homens e uma mulher, é uma urussanguense que aprendeu a amar em vários idiomas.

Isso porque todos seus filhos estão residindo no exterior. O mais novo mora em Londres, o mais velho mora na Itália há 35 anos e os outros dois há mais de 25 anos na Alemanha, onde sua filha casou com um alemão.

Ela tem 2 netos e 1 neta, um inglês com 1 ano de idade, uma neta italiana com 19 anos e um neto alemão com 10 anos.

Ao falar sobre viver sozinha em Urussanga, Nórdia disse que tem seus irmãos por aqui e que já se acostumou com o fato de os filhos morarem longe.

“Meus filhos estão muito longe de mim. Mas estão todos bem. E isso é o que realmente importa para qualquer mãe. Hoje em dia está menos difícil de conviver com esta situação. Temos o celular que se pode conversar até por vídeo e manter contato a hora que tivermos vontade. É claro, respeitando as diferenças de horário dos países.

O ruim é que não acompanhamos d perto o crescimento de nossos netos mas, como eu disse, tudo se aclama no coração quando a gente sabe que todos estão bem.

Então, fico aqui no meu apartamento, cuido do jardinzinho na Praça aqui na frente de casa e sempre pego minha bicicleta para ir até o bairro De Villa visitar meus três irmãos que moram lá.

Eu me habituei, faço tudo sozinha e, graças a Deus, tenho muita saúde, que é o principal” afirmou Nórdia.