Estado Novo - soldado deserta do 5º BC em Urussanga


Esta foto datada de 11 de junho de 1937 completou no mês passado seus 83 anos.

Pelo ângulo e sombra das residências, presume-se que o fotógrafo a tenha tirado da torre da igreja matriz Nossa Sra. da Conceição na tarde desse dia, eternizando a imagem da Praça Anita Garibaldi ainda em formação.

Pelo estilo de escrever sobre a imagem, datando a foto e colocando texto que identifique o local e o acontecimento, pode-se dar o crédito desta imagem ao fotógrafo Santo Felippe, o qual tinha esse costume e deixou um grande legado em lâminas de vidro sobre o cotidiano dos urussanguenses no início do século XX.

Mas esta foto retrata não só a história local, como nos remete a um acontecimento que mudou o Brasil no ano de 1937, levando o país a viver a ditadura do Estado Novo sob o comando de Getúlio Vargas até o ano de 1945.

Para entender porque tropas do Exército vieram para Urussanga, é preciso saber que Getúlio Vargas deveria seguir as instruções da Constituição de 1934 e abrir caminho para que as eleições diretas para presidente fossem organizadas.

Mas isso não aconteceu. Como mandatário da Nação e com temor de um levante no Rio Grande do Sul para destituí-lo do poder, Vargas enviou o 5º Batalhão de Caçadores de Piratininga/SP para o Sul, intimidando e criando reforços para impedir os seus inimigos de chegarem a capital no Rio de Janeiro.

Naquele época Urussanga era considera ponto estratégico, caminho para quem transitasse entre o Norte e o Sul do Brasil. Com um território que englobava também os municípios de Morro da Fumaça, Cocal do Sul, Siderópolis e Treviso, Urussanga era conhecida nacionalmente pelo eu subsolo rico em carvão, produto que foi muito utilizado para exportação.

Os quase 400 soldados do 5º BC vieram de navio até Laguna, de onde vieram de trem até o Bairro da Estação.

De maio a agosto de 1937, esse Batalhão permaneceu em Urussanga e pode-se dizer que, de certa forma, ajudaram os urussanguenses a venderem seus produtos para que os cozinheiros do Exército preparassem a comida para toda aquela gente.

Os soldados ficavam alojados em suas barracas espalhadas nos lotes baldios no entorno da Praça Anita Garibaldi e atual Av. Presidente Vargas. Muitos utilizaram o galpão que anteriormente tinha sido a sede do partido fascista em Urussanga. Os Sargentos e Tenentes se hospedavam em pensões e o Comandante Geral ficou hospedado na Casa paroquial, tendo sido recebido pelo padre Gilli.

Muitos fizeram amizade com a população que se encantava ao vê-los fazer exercícios duas vezes por semana e também vê-los desfilar no entorno da Praça Anita Garibaldi duas vezes por semana.


Mas o fato mais curioso foi relatado pelo urussanguense Armando Bettiol.

Segundo ele, um soldado não muito contente coma vida no Exército resolveu abandonar tudo e fugir.

Antes disso, porém, vendeu seu fuzil para um urussanguense, jogou a caneca e a pá que lhe foram dadas pelo Exército no rio próximo à residência da família de Ferdinando Bettiol.

Como a atividade desta família era ligada ao rio, trabalhavam com ferraria e atafona, os filhos acharam posteriormente a caneca e a pá.

A caneca de alumínio, que tem inscrições de medidas e duas alças para serem introduzidas o cinto, ainda estão sob os cuidados de Armando e foram mostradas esta semana à reportagem de Panorama SC.

Do soldado, nem o Exército e nem nenhum urussanguense ouviu mais falar.