Enchentes: águas que vão, lembranças que chegam

Por Marcia Marques Costa

Se houve algo que a palavra abundância representava Urussanga, isso se chamava água potável.

No tempo em que a Praça Anita Garibaldi ainda era Praça Pinheiro Machado no mapa do Núcleo Sede Urussanga, pode-se ver os lotes do centro da cidade sendo contornados por dois rios: o Urussanga e o Americano.

No início da colonização, esses rios, além da água para o consumo humano e afazeres domésticos, forneciam também peixes e belos locais para banhos no verão.

Fato esse que, além de proporcionar uma fonte diferen- ciada na alimentação, servia de entretenimento entre os amigos que se reuniam para fazer piqueniques ou caçar e pescar e, depois, faziam almoços ou jantares com muita cantoria.

Mas a tradição de pescar nestes rios encerrou por volta da quarta década da colonização, quando as atividades extrativistas de carvão mineral começaram a mostrar seu poder destrutivo e a mortandade de peixes causou espanto aos moradores ribeirinhos da Praça Anita Garibaldi.

De lá até hoje, o laranja escuro do enxofre nas águas do rio Urussanga, aliado a todos os demais poluentes que são despejados em seu leito, vem mostrar a eficácia humana na destruição e, ao mesmo tempo, a sua incapacidade de agir, na mesma velocidade, para recuperar o que destruiu.


As enchentes


Vivendo numa área bastante irrigada e que recebe o excedente das chuvas nas partes mais altas, palavras como alagamento e enchente fizeram parte desta história de quase um século e meio de Urussanga.

O primeiro registro fotográfico conseguido pela reportagem de Panorama SC de uma enchente em Urussanga é datado de fevereiro do ano de 1953, quando as águas inundaram o centro da cidade, localidades como São Pedro e os distritos de Siderópolis e Morro da Fumaça foram bastante atingidos.

Após este acontecimento, períodos chuvosos sempre deixavam a população apreensiva e, não poucas vezes, os urussanguenses que construíam seus paióis de armazenamento próximo aos rios, tiveram que retirar seus produtos em pequenas inundações.

Em 1974, no dia 24 de março, um acontecimento veio para marcar a história das enchentes e fazer os órgãos públicos iniciar a busca de uma solução.

As águas das chuvas que caíram incessantemente na Serra dois dias antes, desceram para o Vale deixando um rastro de destruição desde Lauro Muller até o litoral.

Urussanga estava no caminho e também sentiu o poder da natureza, com as partes baixas como o Centro, Bairro da Estação e São Pedro sendo os locais mais atingidos.

No município de Tubarão, onde a força da água tirou quase 200 vidas, a tragédia ganhou um memorial.

Em Urussanga, onde prejuízos foram de grande monta e exigiram do prefeito da época- Altair Giordani a maior prova de sabedoria administrativa, o ocorrido ficará como a maior enchente que Urussanga presenciou.

E, neste ponto, onde a ansiedade de presenciar mais catástrofes foi praticamente exterminada no centro da cidade, deve-se ressaltar a ação do ex-prefeito que sucedeu Altair Giordani, o então jovem engenheiro Ruberval Francisco Pilotto. Numa ação ousada e contando com o apoio de recursos do governo do Estado, Pilotto retificou o trajeto do rio Urussanga, distanciando-o da área central e dando-lhe maior vazão.


Saiba mais

A bacia do rio Urussanga abrange os municípios de Balneário Rincão, Cocal do Sul, Criciúma, Içara, Jaguaruna, Morro da Fumaça, Pedras Grandes, Sangão, Treze de Maio e Urussanga. Essa bacia tem área de 619 km2 e possui elevados níveis de comprometimento da qualidade das águas, causadas por agrotóxicos, esgotos urbanos e industriais, criação de suínos e, principalmente, por resíduos da extração de carvão.

O rio Urussanga é formado pela confluência dos rios Maior com o Carvão, cujas nascentes estão localizadas na baixa encosta da Serra Geral e nos morros a nordeste e sudoeste. Mais abaixo, o rio Urussanga recebe os rios Américano e Caeté. Conforme vai passando pelos municípios recebe os afluentes Cocal, Ronco D’Água, Linha Torrens, Linha Anta, Três Ribeirões, pela margem direita. E, os rios Barro Vermelho, Ribeirão da Areia e Vargedo, pela margem esquerda. Sua foz é na Barra do Torneiro, limite entre Rincão e Jaguaruna, onde forma um complexo lagunar.