De Nez - a última ferraria artesanal em Urussanga


Em 1976, quando iniciou os trabalhos em sua própria ferraria, o urussanguense Severino De Nez estava realizando um sonho de infância.

“ Quando eu era pequeno e tinha que levar os arados na ferraria para arrumar, eu ficava olhando eles baterem com o malho e me perguntava: será que algum dia eu vou conseguir bater ferro no malho e forjar peças?”, explicou De Nez para o repórter Sérgio Costa que, acompanhado do colaborador deste semanário- Gilson Fontanella, esteve na localidade de Barro Preto essa semana para registrar a atividade da última ferraria artesanal na cidade de Urussanga.

Atendendo clientes de Urussanga, Lauro Muller, Orleans, Braço do Norte e São Ludgero, o ferreiro Severino mantém sua rotina há mais de 40 anos, saindo de madrugada de sua residência para o barracão construído em sua propriedade, e retornando para descansar somente após o sol se por.

Casado com Devanir Zanelato há 53 anos, e pai de três filhos, Severino mostra tristeza em não ter podido estudar e explica que antes de realizar seu sonho de ter uma ferraria precisou trabalhar na Carbonífera Próspera, em Criciúma.

“Nesta Carbonífera eu trabalhei mais de 10 anos e lá aprendi a fazer desenho mecânico e tornearia. Mas eu não gosto de trabalhar em torno” afirmou o ferreiro que amava o que fazia mas se sentia desconfortável por considerar que sua profissão era amaldiçoada.

Em tom de desabafo, ele relatou que certa feita falou ao padre Daniel Sprícigo: “- Padre, eu sou ferreiro. Uma profissão amaldiçoada”.

Foi quando o então pároco de Urussanga disse: “- Não há profissão amaldiçoada”.

Desolado, o ferreiro disse: “mas fomos nós, os ferreiros, que fizemos os pregos e o martelo que crucificaram Jesus, Padre!”

Então, numa sabedoria que acalmou o coração do trabalhador urussanguense padre Daniel concluiu: “Mas Jesus morreu na cruz para salvar a humanidade. Era sua missão e o ferreiro ajudou a cumprí-la.”

Mais aliviado e liberto do sentimento de culpa, Severino levou sua fé para dentro de um galpão cheio de equipamentos e materiais para o fabrico das peças, onde mantém uma imagem de Nossa Senhora Aparecida e, aos 74 anos de idade, diz que continuará trabalhando até que Deus conceda saúde.

Além de ferreiro, Severino é marceneiro e mantém um pequeno espaço ao lado da ferraria para suas obras em madeira.

Mas tudo isso parece estar fadado a ter um término, pois nenhum dos filhos de Severino pretendem deixar a agricultura para tocar a ferraria.

E, se isso acontecer, Panorama deixará para a posteridade a imagem de último ferreiro de Urussanga que, a ferro e fogo, contribuiu para com o desenvolvimento da cidade.



Com a esposa Devanie e, abaixo, defronte o galpão da ferraria e da marcenaria.