90 anos do Urussanga Futebol Clube

Ex-jogadores lembram suas histórias

Foto de 1948 com a Taça de Campeão Regional, publicada no almananque Esporte Majestoso do Bolão do Criciúma, em 1980.

Da esquerda para a direita/ de pé:Aroldo, Getúlio, Pedro, Puccini, Zeca e Freccia. Agachados: Lydio, Teonaz,Pipa, Victório, Lordy Damiani e Belolli.



Afirmam os estudiosos que o futebol se entrelaça no romantismo de grandes escritores com o talento de atletas deste esporte.

Isso porque, segundo eles, quem induziu o Rei Jaime I a liberar os jogos de futebol considerados pagãos, foi ninguém menos que o autor do romance Romeu e Julieta - William Shakespeare, natural da Grã-Bretanha, onde também se afirma ter nascido o futebol nos moldes atuais.

Essa paixão, inclusive utilizada por chefes de Estado para promoverem seus governos e mobilizar multidões em torno de um símbolo patriótico, começou a tomar forma a nível de competições internacionais no ano de 1930, quando foi realizada a primeira Copa do Mundo no Uruguai e o Brasil ficou em sexto lugar na competição.

Nesta época, já há uma década existia extra-oficialmente na cidade, o Urussanga Football Club (escrito em inglês), com os atletas da Benedetta que, desde 1920, corriam atrás da bola em campos improvisados onde atualmente fica a sede da Prefeitura Municipal, e posteriormente, em terreno baldio nas proximidades do local onde hoje é a escola Barão do Rio Branco.

De 1925, quando o jogador Polidoro Bez Batti teve uma fratura exposta na perna durante uma partida e veio a falecer por complicações no ferimento; até 1931 - quando reiniciaram oficialmente as atividades do Urussanga Futebol Clube, houve um período em que o talento futebolístico dos fortes rapazes italianos evidenciou a fraca retaguarda na área da saúde, onde os recursos eram insuficientes para atendimento a emergências mais graves e, desta forma, forçou a paralisação das atividades nesse tipo de esporte.

Com a amplição dos serviços no pequeno hospital existente e a tranquilidade garantida pelo fato de o médico Dr. Vittorio Giacone residir na cidade, o trauma da prematura morte do irmão do prefeito Luca Bez Batti foi superado e o agora abrasileirado nome Urussanga Futebol Clube nascia para grandes campanhas e abria espaço para talentos de várias gerações.

Vale ressaltar que o Urussanga Futebol Clube fazia parte do patrimônio da Sociedade Recreativa Urussanga e, segundo relatos de quem viveu aquela época, a separação do setor de esporte com a parte recreativa se deu em virtude de desentendimentos na direção, no final da década de 1950, início da de 1960.

Isso porque houve uma grande campanha para aumentar o número de sócios para patrocinar o time, mas estes novos sócios acabavam tendo direito de frequentar os famosos bailes da Sociedade Recreativa, desagradando parcela que não admitia essa participação.

O patrimônio foi dividido, com o Urussanga Futebol Clube transformando-se em uma associação e a Sociedade Recreativa Urussanga em outra .

Na próxima segunda-feira, 19 de abril, quando serão comemorados os 90 anos de atividades dessa associação, as emoções farão desfilar centenas de rostos que ostentaram o emblema do UFC em suas camisetas ou que apoiaram o time urussanguense em seus áureos tempos de conquistas ou, ainda, o mantiveram vivo em épocas não tão promissoras, permitindo que chegasse aos nossos dias como um símbolo de perseverança e de amor ao esporte amador.

Para marcar esta data, Panorama SC entrevistou alguns ex-atletas que são parte desta história quase centenária.

O primeiro deles foi Ary Silva, ex vice-prefeito de Urussanga que foi jogador do Urussanga Futebol Clube e hoje, aos 93 anos, lembra com saudade de sua vida de atleta.


O contador que lutou pelo UFC





Chegando em Urussanga no ano de 1949 e com fama de ser um bom ponta-direita no Figueirense de Florianópolis, local onde residia, Ary logo se integrou no time que já tinha uma taça de campeão desde 1947 com nomes que até hoje são sinônimo de bom futebol, como Aroldo, Getúlio Rocha,Vilmar Pucini, Lidio De Brida,Teonaz Rocha, Vitorio Zanatta, Lordi Damiani e Beloli.

“Eu era ponta-direita no Figueirense, mas quando cheguei aqui fui requisitado para jogar no Urussanga FC. Mas não tinha lugar certo. Jogava onde era preciso.

Eu participei como jogador amador porque gostava deste esporte. Minha atuação foi entre 1950 e 1952/53. Depois abandonei porque não almejava ser um jogador profissional. Minha profissão era contador, mas continuei participando do UFC como torcedor e apoiador” afirmou Ary.


O jovem contratado para não ir embora



Já Antonio Carlos Zanelato (Bugio que na foto recebe a faixa), até hoje guarda com carinho seu contrato com o Urussanga Futebol Clube, o qual vigorou entre 1961 e 1964, sente orgulho de ter participado desta história.

“Eu era adolescente quando assinei meu contrato para ser jogador do amador UFC. Eu tinha recebido um convite para ser jogador no time da cidade de Vacaria-RS, então me fizeram assinar este contrato pra eu não ir embora.

Minha posição era como ponta-direita e eu tive oportunidade de treinar com grandes jogadores da nossa cidade como Teonaz Rocha, Bibe Cancellier, Juca, Gilberto Freccia e muitos outros. Urussanga tinha gente de talento no futebol” explicou Antonio Carlos ao informar que posteriormente foi para a cidade de São Leopoldo estudar e jogar no time da cidade, tendo sido convidado inclusive para fazer parte do plantel do Internacional.

“Eu não fui para Vacaria, mas acabei indo para São Leopoldo, onde teria oportunidade de jogar futebol e estudar. Me formei técnico em tornearia mecânica e, certa feita, quando jogava pelo time daquela cidade, um observador do Internacional me convidou a fazer teste para seu time de aspirantes. Eu fui, passei e fiquei de voltar na semana seguinte para treinar. Aconteceu que no dia do treino havia um prova muito importante e que eu não podia faltar. Então eu não compareci. Depois fui treinar mais uma vez e acabei desistindo, pois era difícil trabalhar, estudar e ainda conciliar o treino. Achei por bem me formar e voltei para Urussanga” afirmou Antonio Carlos.


O salvador da derrota



Também jogador do UFC na década de 1960, o bioquímico Rogério Nichele Rocha tem boas recordações do mundo futebolístico da Benedetta.

“Na minha época, o time era formado por profissionais de diversas áreas. Era uma equipe mista e meu pai- o Teonaz, que tinha sido jogador e era um investidor para a continuidade do time, me incentivou a participar. Depois, eu tive que me afastar porque fui estudar fora e quem ficou no meu lugar de goleiro foi o Fidele de Brida, que acabou participando do campeonato.

O UFC , naquela época, jogou contra o Hercílio Luz, Ferroviário, Metropol, times de Orleans e Lauro Muller e, posteriormente acabou se transformando em uma equipe forte e com jogadores que se tornaram profissionais, a exemplo do Vilmar Pucini e do Gilberto Fréccia.

Tenho boas recordações. Boas partidas e brigas intensas também, como a do time de Rio América, que se dizia ser o time do Dr. Tasso. Havia uma certa rivalidade entre o time do Centro e o do Bairro Rio América.

Eles, valentemente, vieram brigar com o UFC e acabaram perdendo por 1x 0.

Diziam os comentaristas da época que a vitória se deu graças ao goleiro que, na oportunidade, era eu. Impedindo a bola de entrar na nossa trave por várias vezes, ajudei a vencer o adversário que jogou bem a partida.

Éramos jogadores por amor a camisa, com intuito de manter viva a agremiação esportiva” afirmou Rogério.



O jogador reserva que assumiu após dois quebrarem as pernas



Boa recordações é o que não faltam ao ex-atleta do UFC - José Vânio Piacentini, que também fez parte da história deste time urussanguense na década de 1960.

“ Eu participei do UFC quando ele fazia parte da Liga de Lauro Muller e até teve oportunidade de participar do Campeonato Catarinense. Eu jogava de reserva do goleiro Dalmo e do Érico.

Em uma das partidas, quando nós fomos jogar contra o Guatá para disputar uma vaga no catarinense, eu lembro com bastante clareza que quase no começo do jogo o Toninho, o nosso lateral, quebrou a perna e precisou ser substituído. Naquela época só se podia fazer duas substituições.

Na metade do primeiro tempo, mais uma desgraça aconteceu: quebraram a perna do goleiro Érico também!

Então eu tive que entrar no gol. E, graças a Deus, nós estávamos perdendo de 1x0 e conseguimos virar o jogo, inclusive com um maravilhoso gol do Juca.

Eu tive oportunidade de jogar com o Juca, o Gibi, o Celinho Ghizoni,o Carocha e uma série de jogadores já famosos na região. Cheguei a fazer parte do time principal como reserva de goleiro. Urussanga tinha um time bem caracterizado, com bons jogadores e, no seu auge, era um time respeitado.

Participamos de campeonatos da LARM, da Liga Tubaronense, jogamos em Itajaí quando o Teonaz Rocha era nosso técnico. A maioria dos jogadores ia por amor à camisa. Alguns ganhavam emprego em Urussanga para jogar no time da cidade.

Quando acabou o UFC, surgiu o Juventus e então eu passei a jogar como profissional” afirmou Vânio ao acrescentar que “naquela época os campeonatos eram bem prestigiados.Quando havia jogos no estádio, todos participavam e as torcidas lotavam o local.

Quando nós estávamos no time dos aspirantes, íamos jogar em Lauro Muller acompanhados pelo médico Dr. Raul da Rosa, Rosalino Damiani, o Geraldo Simões e outras pessoas com influência na cidade acompanhavam o time. O futebol era uma paixão mesmo!

Tivemos até alguns entraves com times de Criciúma e o nosso maior adversário era o Comerciário, que sempre jogava com muita força e paixão para alegrar sua grande torcida. O UFC foi um campo para revelação de grandes jogadores.

Eu lembro que quando iniciei minha pequena trajetória pelo futebol, ainda bem jovem, era o Padre Agenor que nos levava para assistir as partidas.

Ele colocava a rapaziada em um jipe que ele tinha. Quando chegava no local, ele ia atrás da trave do time adversário e fazia suas rezas. Tinha também uma boneca preta nas mãos que ele dizia que era para proteger nosso time e dar azar pro adversário. Quando a gente ganhava ele colocava todos no jipão e desfilava por toda a Praça para anunciar a vitória para a comunidade.

Bons tempos e que trazem recordações maravilhosas” finalizou o ex-prefeito José Vânio que acredita não ter sido falta de talento e de atletas o motivo para a decaída do Urussanga Futebol Clube no mundo futebolístico da região e, sim, a falta de investidores e de patrocínio para que as cores vermelho e branco que representam a cidade pudessem se manter em evidência até os dias atuais.


Saiba mais

O atual estádio do Urussanga Futebol Clube foi inaugurado em 13 de abril de 1952 com grande festa e contando com a presença do governador do Estado - Irineu Bornhausen, do deputado estadual urussanguense João Caruso e do prefeito da época Dionísio Pilotto.

A partida inaugural foi contra o Barriga Verde de Laguna e os urussanguenses venceram por 2x0 com os jogadores Bepa, Puccini,Getúlio,Valdemar Freccia, Pacheco, Índio, Amancio Luciano, Olavo, Euzébio, Ramos Roussen, Paulista e Zeca Escaravaco.


Do Símbolo

O mascote do UFC é a cobra e as informações obtidas por Panorama SC dão conta de que este réptil foi escolhido porque lembrava a grande vitória da Força Expedicionária Brasileira (FEB) na 2ª Guerra Mundial, quando até o urussanguense Frederico De Pellegrin participou da batalha que deu a vitória aos Aliados na Itália.

Como o símbolo da FEB era uma cobra fumando cachimbo, os urussanguenses resolveram adotar o mesmo mascote tirarando o cachimbo porque, segundo a lenda, o negócio do UFC não era fumar e sim envenenar a bola para matar o adversário no gol.


Por Marcia Marques Costa